Estou lendo Clarice Lispector, Água Viva. Estava angustiada por um novo livro, o primeiro de 2011. Pensei em Saramago ou García Marquez, pensei em Machado de novo, pensei em voltar para as crônicas do Drummond & cia, pensei em ler Chico Buarque pela 1ª vez, pensei em relaxar com Adélia Prado, me sugeriram Dostoiévski e por aí vai. Mas fui certeira nesse "livretinho" da Clarice. E não poderia ser melhor.
"É que agora sinto necessidade de palavras - e é novo pra mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão."
"Escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio".
Para concluir, hoje vendo o Roda Viva na TV Cultura, tomei pra mim mais uma do grande Ferreira Gullar: "A página em branco tem mil possibilidades. Quando eu escrevo a 1ª palavra eu reduzo a probabilidade: é 1 milhão menos 1!"
Continuemos como o poeta então! Diminuindo as possibilidades...
curvas da estrada Rio-São Paulo, diário de obra e de vida, ecos inquietantes de quem vive da arquitetura mas não sabe bem arquitetar sua vida...
terça-feira, 1 de março de 2011
Tentações da madrugada
Hoje é mais uma noite em que eu não consigo ir pra cama antes da 1h. Conseguir, eu consigo, claro. A questão é que eu não quero. Perder a madrugada pra mim é como tirar a cobertura de chocolate do bolo de cenoura: você encara, come, porque o bolo é gostoso por si só... Mas com a calda de chocolate fica perfeito! Bem... Encerro essa comparação por aqui. Não sou nada boa em metáforas
O fato é que a madrugada é o início do dia, para mim. Aqui e agora eu esqueço as lamúrias do dia passado, recolho meu silêncio, ouço minhas inquietações, converso com alguns amigos distantes, vagueio um pouco (um pouco?) pelas redes sociais, leio meus blogs favoritos... E claro, escrevo! Ah sim, e também trabalho, faço os projetinhos em pauta e mais coisitas que a FAU me “obriga” a fazer. O que talvez (aliás, com certeza!) eu deveria fazer é otimizar mais minhas poucas horas acordada na madruga, porque amanhã será “dia de branco”, como diz minha mãe. E hoje, mais do que nunca, pois amanhã começo no meu new job! Aliás, espero ainda comentar muito aqui sobre os projetinhos que vão rolar nessa nova empreitada.
Mas o melhor de ficar acordada nas madrugadas é nos dias que antecedem um folga de trabalho e estudo, ou seja, sexta e sábado. Não falo porque são dias em que você pode voltar tarde para casa, matar a sede naquela Brahma gelada, ter conversas existenciais infinitas com seus amigos ou também (sim, também!) se aconchegar nos braços dele sem ter hora pra acordar. Tudo isso é excelente, claro, mas tenho apreciado muito a arte de passar a madrugada de sextas e sábados sozinha, neste mesmo sofá (o famoso Azul) de onde vos escrevo.
E nestas noites eu vejo o relógio passar vagarosamente, minuto a minuto. As horas demoram a terminar. O tempo é outro. É o tempo de cidadezinha do interior, sabe? Tempo e paz. O silêncio, a calmaria, a ordem, tudo está no seu lugar. Posso adentrar a madrugada sem preocupação alguma. O telefone não vai tocar. As luzes estão desligadas. Só uma leve penumbra ilumina o meu redor. É o tempo e o lugar do paradoxo, onde tudo ali contraria a rotina da vida, contraria minhas angústias, contraria minha euforia e meu desânimo. Entre um filme e outro, entre uma leitura e outra, uma pausa para o chá com pão na frigideira com margarina. E a única preocupação é não torrar demais o pão francês.
Pra que dormir? Pra que abrir mão deste momento? Não poderia me negar mais alguns minutos dessa paz. A madrugada é tentadora, me chama, me seduz. E quanto mais eu me deixo levar, mais entorpecida eu fico. 2h, 3h, 4h da manhã e eu não quero deixá-la. Quanto mais eu fico aqui, na madrugada e no Azul, mais longe eu sinto que estou da agonia da manhã seguinte.
Sim, eu sei que preciso das manhãs, já comentei sobre isso aqui no blog. Vou tentar dosar essa incoerência. Difícil. Bem disse Oscar Wilde: “Resisto a tudo, menos às tentações”.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Da série 'Homens & Mulheres": constatações
Tenho refletido muito sobre o quanto a vida é injusta com as mulheres. E como é boa para os homens. Não vou começar um discurso feminista nem vou dizer que odeio homens ou coisa do tipo. Pelo contrário! Na verdade o tom desta conversa é mais para o lado do elogio à turma masculina do que para condená-los. Eles não têm culpa (a nova gramática manda tirar o ^ do tem no plural, mas eu ainda não acostumei!). Os homens são muito favorecidos durante toda juventude, têm uma postura mais ativa do que as mulheres e, talvez por isso e por outros motivos, me parecem conseguir alcançar seus objetivos, sem ter que se desdobrar em mil tarefas aleatórias, como nós, mulheres.
E o que tenho percebido ultimamente é quanto o homem é mais solícito com seus iguais, principalmente quando começa a beirar a casa dos 30. Solícito é muito formal. Digamos: parceiro mesmo, brother! Eles se tratam como se fizessem parte de uma irmandade. É a galera, a rapeize! Outro dia (leia-se, em 2010), eu voltava do trabalho no ônibus super cheio, meio de semana, uma chuva chatinha caindo naquele início de noite, e reparei na conversa de um cara com o seu brother no celular. Era um convite para passar lá no bar, tomar uma gelada e jogar conversa fora. Eu pensei: Mas agora? Com essa chuva? Plena 4ª feira? E pra meu espanto, o meu colega de ônibus retribuiu a gentileza do convite e confirmou que assim que ele “saltasse no bairro”, ele daria uma passadinha lá no bar, pra dar um “salve”. Isso que é parceiro! Agora vejamos esta mesma situação com duas mulheres: ela já iria pensar que a chuva poderia desfazer sua chapinha, que se ela chegar tarde em casa não encontra o affair no MSN, que cerveja só é legal na balada, e por aí vai...As meninas também têm essa união com as outras, mas eu sinto que é mais por volta dos 15, 16 anos, enquanto os meninos estendem essa ligação até os 30, 35 ou mais! E eis aqui a problemática.
Sinto que quando as meninas chegam na idade de namorar firme, digamos por volta dos 18 anos, elas quebram essa necessidade de ter laços fortes com outras meninas. Sim, todas continuam a ter amigas, a desfrutar da cumplicidade e tudo mais. Mas na prática, no dia-a-dia, muita coisa se perde. Ao contrário do cara que, mesmo namorando, não abandona sua rotina de convívio com os brothers. E a namorada o que faz? Ao invés de viver sua individualidade dentro do namoro, pega no pé do coitado e vive reclamando do futebol e da cervejinha no boteco!
Mas o caro leitor pode agora então olhar nos olhos deste que vos escreve e dizer: isso é crise de quem está chegando nos 30, é solteira e tem círculo social limitado. Eu seria obrigada a concordar com estes predicativos, mas minha leve revolta não é pessoal. Não agora! É só uma constatação. E, mais uma vez, elogio os homens e vou cada vez mais concluindo que mulher é “bicho chato” mesmo!
Mas que fique claro: gosto muito de ser mulher! Creio que nós, mulheres, estamos a anos-luz de distância dos homens em vários quesitos, mas para as coisas simples da vida, temos que admitir que os homens são bem menos complexos que nós e, portanto, mais práticos, mais pragmáticos! E só concluindo: eu não compactuo com discussões sexistas, ok! É só uma constatação...
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Sr. Terra Wikipedia
Ontem, enquanto esperava minha chefe chegar ao escritório, tomei um livro do Niemeyer pra ler. Um livro dele mesmo, escrito por ele, quero dizer, como um livro de memórias. Meio cansativo, por sinal, mas sou suspeita quando o assunto é literatura do cotidiano. Leio qualquer porcaria, não que o livrinho do Oscar o seja! Já foi-se quase metade do livro e hoje, na volta pra casa, voltei a lê-lo (como é feia essa tal de ênclise!).
Lá pelas tantas, quando o velho (com todo o respeito pelo homem!) relatava suas peripécias durante a construção da nova capital federal, ele mencionou a companhia de Dilermano Reis, nas visitas que fazia ao JK no Palácio da Alvorada. Daí então não dei mais seqüência à leitura, naquele ambiente maravilhoso que é o ônibus Rio Pequeno, no horário do rush. Mas não por isso. Fiquei pensativa porque meu pai sempre mencionava o tal Dilermano Reis... Daí o caro leitor se pergunta (e eu me achando Machado de Assis!): Ok, eu também já li uma pá de coisas com assuntos já conversados com meu pai, com minha mãe e até já conversados com meu papagaio!
Pode ser simples para o caro leitor, mas quando leio algo que se relaciona imediatamente à alguma lembrança da minha convivência com meu pai, sempre sinto a leitura como uma pseudo-conversa com o velho (não o Niemeyer, mas o outro velho, o Terra). É como uma cutucada do velho em mim (para os caros leitores usuários do Facebook). Ou melhor, eu sinto como se pudesse, hoje, agora, chegar em casa do trabalho e comentar: “Pai, eu li que o Dilermano Reis tocava violão no Palácio da Alvorada, à época da construção de Brasília... Por acaso, ele era amigo do JK?”. E ao invés de ter a resposta dele, infelizmente eu tenho que jogar no Wikipedia ou no Google, para descobrir qual era essa relação.
A quem interessar, Dilermano Reis, violonista e compositor, foi professor de música da família de JK, com quem fez grande amizade: “Ajudei a construir, com minhas próprias mãos, o Catetinho. Meu violão foi primeiro ouvido nos céus da nova Capital e fiz também a primeira música em homenagem à cidade que nascia", disse Dilermano, falecido em 1977.
O velho Terra com certeza saberia dar detalhes sobre a vida do violonista, de quem era admirador. Aliás, sempre tive a impressão que ele sabia de tudo um pouco! Na minha época de primário e ainda muito distante da simples rotina “joga no Google!”, ele era a minha salvação naquelas pesquisas que fazíamos ao fim da semana, desenhávamos e fazíamos colagem em cadernos A3, formato paisagem... Minha irmã caçula diz que eu também sei de tudo um pouco. Talvez sim, Talvez apenas eu tente saber. Sou só curiosa.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
De volta à antiga banalidade
Coisa que eu não sou boa é esperar que os outros façam algo da qual dependa minha felicidade ou meu sucesso. Não gosto de esperar muito dos outros. Prefiro fazer eu mesma, por mim mesma. Quando eu tinha meus 12 anos, já avançava nos 1,70 m e não alcançava os 50kg, comecei a escutar que eu devia ser modelo. Nunca fui vaidosa (no sentido exibicionista da palavra) e sempre fui (e ainda sou) muito envergonhada pra esse tipo de trabalho. Uma vizinha me levou pra um curso, fiz uns desfiles lá no subúrbio do Rio e logo desanimei com toda essa história. Imaginava o tanto de meninas bonitas, magrelas e altas que, assim como eu, tentavam virar tops de sucesso. E, é claro, que essa façanha não dependia só da beleza. Nesse mundinho (e em tantos outros, como é sabido) rola muito “Q.I.”, o famoso “quem indica”, e fora que você tem que ficar pra cima e pra baixo na cidade, com um book debaixo do braço, torcendo pra alguém gostar da sua carinha. Definitivamente, não era minha praia. Ainda bem que cheguei a essa conclusão com 12 anos de idade!
E no geral até que tenho muita autoconfiança no que eu faço e, quando me esforço, sempre tenho bons resultados. Por isso até hoje teimo em não querer esperar um “brinde” dos outros, ainda mais agora, que sei que consigo eu mesma construir minha felicidade.
Tudo muito simples e prático, sim? Não. Tem uma questão. Sim, é sobre namorados. Taí outra fonte da qual tento (eu disse tento!) não esperar muita ajuda para complementar minha felicidade. Passei minha boa adolescência resistindo bem, entrei na vida adulta e também consegui driblar alguns malandros disfarçados. E fui sobrevivendo, sem sentir muita falta daquilo que não poderia sentir falta, pois nunca havia sentido! Até namorar firme. Namorei durante cinco anos e meio (há controvérsias quanto à duração) com um cara que, embora hoje possa xingá-lo de tudo quanto é nome, tenho que dizer que marcou minha vida e soube me fazer feliz. Também não vou elogiar muito o namoro, porque foi bem traumático, como todo bom namoro à distância. Mas passada a tempestade, uma coisa há de ser dita, não por mim, mas por Ferreira Gullar: “Quem conheceu o delírio, dificilmente se habitua à antiga banalidade”. E nisso o poeta tem toda a razão! Eu tento voltar à serenidade da adolescência, mas minhas memórias e meus hormônios não deixam! A situação com os hormônios é até razoável de resolver. Um affair aqui, outro acolá... Mas e o coração? Sim, e o coração, que já se queixa por estar tão esquecido, aqui nessa cidade cinza?
Os anos vão passando e eu vou assimilando a idéia de que eu preciso deixar o coração sempre em atividade. E também vou aprendendo a admitir que a felicidade de um amor correspondido não pode ser substituída por outra, nem pelas conversas com os amigos, nem pelo chamego da família, nem por uma viagem, um bom filme, uma roupa nova, ou seja lá o que lhe traga felicidade. E para isso temos que arriscar colocar parte significativa da sua felicidade nas mãos de alguém. Alguém que até se transformar (ainda que por tempo limitado) no homem da sua vida, é só e tão somente uma dúvida, um desconhecido, um possibilidade de acerto ou de erro. E isso é tão cansativo! O cara pelo qual você vai passar um bom tempo chorando, sorrindo, admirando, xingando, discutindo, beijando... Este cara deveria vir com uma marca no meio da testa! Daí eu iria ficar menos preguiçosa e insegura, para liberar logo meu coraçãozinho ansioso.
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