quarta-feira, 6 de junho de 2012

A hora de voltar... a hora de escrever

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."

Queria eu ter o desespero do personagem de Clarice (em A hora da estrela) para me obrigar a sair da rotina de me ser e aqui, neste blog, pelo menos semanalmente ou quinzenalmente, ser o outro, seja lá o que for!

Não, não tenho pretensões romancistas, não possuo tal gabarito, infelizmente. Mas com minhas "pseudo-crônicas" consigo sair de mim, deixar de me ser, enquanto passeio, espio, vagueio pela vida alheia, pela rotina da cidade, pelos contratempos do tempo...

Só quero ter a tranquilidade para aqui poder escrever, refletir, enxergar, re-encaixar os pensamentos do dia, ainda que esteja cansada da rotina de me ser durante todas aquelas horas, como o personagem de Clarice. Falo isto para que, num futuro próximo, eu não queira ter o que eu tivesse sido e não fui, sabendo que escrever, ainda que informalmente, é um desses meus maiores "quereres".

Volto em breve, assim espero!

E pra não perder a viagem, eis aqui "Nome da cidade", obra de Caetano, na voz da irmã Bethânia, inspirada em A hora da Estrela, 'livrinho' do trecho acima, que vem me acompanhando nesses últimos dias. (Sim, eu ainda não o havia lido! Mas vi o filme esses dias... sou fãzoca do Zé Dumont, só por ele já vale!)





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sem raça definida

Não é de hoje que eu sinto na pele a visível diferença no modo de vestir-se entre cariocas e paulistas. E não é só nas roupas, mas também, e principalmente, como os moradores das duas cidades lidam com a sensualidade do seu corpo, não entre quatro paredes, mas sim nas calçadas, nos bares, no ônibus e por aí vai.

Um amigo quase-carioca me comentou que, ao se ausentar do Rio, a primeira coisa que ele sente falta é de coxas. Sim, das coxas das moças! Ver coxas, ombros, decotes, aqueles dois dedinhos de cintura das mocinhas é coisa mais que habitual no Rio. Ao passo que, para nós meninas (sim, tenho 30, mas ainda sou menina!), não temos nada tão à vista assim, mas é facílimo identificar os contornos masculinos pelas roupas devidamente ajustadas que os meninos do Rio usam. E assim se faz a fama dos cariocas: moças e rapazes que lidam naturalmente com a sensualidade do seu corpo, sem ser vulgar na maioria das vezes.

Já na terra da garoa... Pois então, aqui o buraco é mais embaixo, a pele é bem menos bronzeada e as roupas são bem mais generosas, assim digamos. Sim, claro, o frio ajuda e muito a aumentar o comprimento dessas roupas e a diminuir a coragem dos paulistanos em se “exibirem”. Menos cores, mais tons de cinza, tecidos menos esvoaçantes... E assim se faz o estigma do paulistano: fechado em casacos, olhar indireto, coxas sob meias-calças, rostos sob densas barbas, decotes sob echarpes. Mesmo no verão, no calor de 30° de São Paulo, quando jogam uma cor discreta nos cinzas e quando os paulistanos sacam do guarda-roupa aquela calça cortada que virou bermuda, mesmo assim nada é tão animador pra quem tem o olhar acostumado aos trajes e corpos cariocas.

Antes que o caro leitor deduza que eu sou uma carioca ultra-sensual, exibida e reclamona, eu digo aqui que, atualmente e depois de cinco anos em terras paulistanas, eu estou mais pra cinza do que pra multicor! A idade avançada (tenho 30 sim, qual o problema?) também não me permite grandes exibições.  Abandonei os shortinhos, as blusinhas tomara-que-caia, o cabelão selvagem, as calças justas de stretch. Mais ainda assim, não consigo ser tão “cinza” quanto os paulistanos. E nem mais tão voluptuosa quanto minhas conterrâneas. Estou ali no meio-termo, no estilo cobertor curto: cobre aqui, mostra ali.

Neste carnaval, tive a constatação do que é estar no meio-termo: Fui à Lapa, à noite, com sandalinhas rosas (odeio rosa! mas só tinha esta cor), um shortinho emprestado de uma prima, cabelinho e franjão arrumados, bem maquiada, bem enfeitada com bijuterias, mas... Sem ombros de fora e sem decote à mostra. Comprei uma camiseta comportada em uma loja de adoção de animais com a frase “Sem Raça Definida”, tecido preto com letras garrafais em branco. Achei interessante usá-la no carnaval. Assim como os vira-latas, também acho que sou uma SRD, meio preta meio branca, meio lisa meio crespa, meio carioca meio paulistana, meio cinza meio colorida. Mas de acordo com parâmetros exibicionistas cariocas, eu estava fora do padrão, e não é interessante estar fora do padrão no Rio. Em São Paulo sim! Em São Paulo é cool ser diferente, não ser convencional. Mas no Rio não. Do alto dos meus 1,85m, cheguei a escutar uma dúvida nos rapazes: “Ela é ele? Ela gosta de meninas?”. Sim, caro leitor, nessa vida a gente escuta de tudo! Mas enfim, foi o preço que eu paguei. Ao invés de lerem “Sem Raça Definida”, os rapazes entenderam “Sem Orientação Sexual Definida”.  Êta limitação de pensamento, hein meninos do Rio!

E antes que meus caros leitores peçam para eu colocar uma foto com o visual daquela noite de carnaval, disponho aqui uma foto da camiseta “Sem Raça Definida” com um conteúdo bem mais interessante do que esta aqui que vos escreve!

Quem quiser adquirir esta camiseta: http://www.naturezaemforma.org.br/

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Doctor Lecter e seus filhos

Gosto muito de filmes. Já vi muita coisa, mas confesso que já vi muito filme ruim, muita porcaria que nos empurram goela abaixo. Hoje sou mais seletiva, chego a recusar convite de amigos pra ir no cinema quando eu sei que o querido vai querer ver a última comédia romântica de Hollywood no Cinemark mais próximo. Esses dias eu conversava com minha irmã sobre o filme “Rio”, animação na verdade, e ela, que viu o filme, disse que gostou e tal. Eu respondi dizendo que não assisti e que tenho preguiça de ver (este é sempre meu argumento para não ver filme blockbuster: tenho preguiça de ver!), além de comentar que o filme me parece um tanto caricato, porque o vilão é um macaco, porque passa a imagem mais do que veiculada de um Rio de Janeiro praiano, vida boa, bossa nova, blá, blá, blá... Ela foi taxativa: me disse que eu tenho que parar de ser cri-cri, reclamona, chata... Talvez ela tenha razão. Ah não! Não mesmo! Morro chata, mas não morro num Cinemark de shopping center!
Mas para os meus caros leitores (Alô, tem alguém aí?) não acharem que eu sou uma nerd cinéfila, vou confessar que sou apenas uma iniciante na arte de apreciar cinema. E ainda tenho muitos filmes pra ver  e os chamados clássicos que eu ainda não vi, confesso! Mês passado, comprei alguns deles: a trilogia do “Poderoso Chefão”, alguns antigos do Scorsese (Adoro! E, assumo, adoro os recentes com o Leo DiCaprio!), uns westerns e... Comprei “O silêncio dos inocentes”. Como eu ainda não tinha visto este filme? Como não? Pois então, fui assistir.
Sentada no grande sofá da sala da casa da minha mãe, no Rio, sozinha, na madrugada... Só eu e o Doctor Lecter. Como dizem aqui em São Paulo: Um puta filme! Sou suspeita para elogiar o Anthony Hopkins. Às vezes eu digo que um ator é ruim porque só faz o papel dele mesmo, sempre com o mesmo jeitão. Exemplo fácil: Sandra Bullock, só faz papel de mulher workaholic, solteirona e desajeitada (e levou o seu Oscar justamente por um papel oposto a isso!). Mas o Hopkins me parece ser o próprio Hannibal! Juro que tenho minhas dúvidas se, de vez em quando, o Hopkins não come uns pedacinhos de carne humana! Brincadeirinha... Ele é um ator de um filme só, aliás, de um personagem só.
Mas voltando ao filme, vou aqui confessar: Não me empolguei tanto. Não estou dizendo que o filme é ruim, longe disso. Falo exatamente de empolgação. Sem sustos, sem gritos, sem aflição... Fiquei frustrada. Mas o filme é bom, realmente bom. E porque eu não estava excitadíssima após a minha sessão caseira de cinema? Achei a resposta: Porque eu não o vi em 1991, claro!
Passaram-se 20 anos apenas, mas hoje são outros tempos, de fato. Imagino eu que em 91 este filme tenha causado todo o rebuliço que eu imaginei sentir, mas hoje, no século seguinte, concordo que o espectador tem que se esforçar para se emocionar com os clássicos de 20, 30 ou 50 anos atrás. E isso é triste! No caso de “O silêncio dos inocentes”, eu logo lembrei da enxurrada de seriados que temos atualmente que tratam justamente do tema abordado neste filme: investigação policial e serial killers. Estes “Criminal Minds” de hoje em dia são todos filhos de Lecter! E a exibição massiva deste gênero, na TV principalmente, acaba por banalizar o tema. Eu mesma faço pouco caso de filmes sobre investigação criminal. Tento lembrar o último que vi e constato que foi justamente um Scorsese, “Shutter Island”, aqui traduzido mal e porcamente como “A Ilha do Medo”, que aliás nem pode-se dizer que é uma investigação criminal sui generis.
E voltando ao filme, novamente, recomendo aos caros leitores (Alô?) se ainda não o viram, que o vejam! Só a cena final clássica, com a Jodie Foster sendo perseguida no escuro, vale muito à pena. Só não recomendo a famigerada continuação da trilogia. Aliás, odeio trilogias! Ah, sou chata mesmo! Já assumi lá na introdução deste texto. Mas tem exceções, é claro, e “O Poderoso Chefão” é uma delas, porque o segundo é melhor que o primeiro... Mas essa resenha fica pra outro post!



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Reciclemo-nos!

Às vezes eu tenho a nítida impressão de que a vida nada mais é do que uma repetição de acontecimentos, repetidos e maquiados conforme o tempo. Dos mais triviais aos mais curiosos fatos, tudo parece se reciclar ao sabor do tempo. Tudo já aconteceu antes, nada tem uma sensação pura de novidade. Novidade não existe. Tudo é um dejávu constante. Mudam os ares, trocam-se as roupas, a imagem no espelho envelhece, mas tudo gira em torno do mesmo propósito. Aliás, um despropósito, penso eu.

De pseudo-férias no Rio, de volta ao meu bom e velho subúrbio carioca, tenho a sensação de observar o cotidiano dos meus conterrâneos, como se eu estivesse perto e longe ao mesmo tempo. Perto o suficiente para escutá-los, para perceber o seu corre-corre, para apreciar a dinâmica do seu acordar e dormir, mas longe o bastante para não conseguir acompanhá-los. Reconheço na rua, adultos que um dia vi criança, com filhos e rugas de preocupação. Fico consternada com os preços altos dos produtos no mercado, que me lembro de quando ainda era uma generosa mercearia. Ando a pé com minha cachorra pelos bairros vizinhos e ainda consigo ficar consternada com o estado das calçadas, se é que podemos chamar de calçadas apenas uma “lavada” de cimento e pedra, que separa quase que inutilmente o leito da rua e o portão das casas. Quando mais generosas, estas calçadas só servem de estacionamento de carros, de alpendre para as lojinhas e para outras mil utilidades urbanas, menos para a essencial: caminhar. Generosidade urbana não existe no subúrbio carioca. Se o caro leitor quer ter o desprazer de verificar com uma boa caminhada, sugiro a Estrada do Quitungo, avenida que corta os bairros de Brás de Pina, Cordovil e Vista Alegre. É o bom e velho subúrbio, com as mesmas carências de sempre, que tenho certeza, infelizmente, vão continuar sendo as carências de amanhã, apenas recicladas.

Na esquina da minha rua, há um bar de vida efêmera. Minha mãe diz que ali está enterrada uma cabeça de burro (se o caro leitor nunca ouviu, isto é um ditado popular!) e que nada ali dá certo definitivamente. Hoje tivemos uma tão anunciada inauguração do bar, que se não me falha a memória, já havia sido inaugurado ainda este ano! Pois bem, que seja re-re-re-inauguração, mas hoje a noite foi de cantoria e movimento na minha esquina. Por ali já lanchei muitas vezes quando criança, observava os adultos na cervejinha de fim do dia, juntava moedas para comprar um pedaço da melhor torta de chocolate que já comi, reuníamos os primos em torno da minha falecida vó, para saborear uma coca gelada, ainda em garrafas de vidro de 1L, ofertada por ela quando recebia a graninha do INSS. Lembro de um jogo de futebol que assisti na TV que ficava dentro do balcão. Era aquele Brasil e Holanda, que terminou em pênaltis se eu não me engano, semifinal da Copa de 98. Eu tinha 16 anos e vi um jogo de futebol no balcão de um bar e acredito que tenha sido a única “mulher” ali, do lado de fora do balcão! Mas não era qualquer bar... Era na “lojinha”, ali eu tinha permissão para ficar.

E hoje, com outras cores, com outro nome e com outro dono, a “lojinha” como chamávamos lá nos idos dos anos 90, reabriu as portas. Prestigiei o evento, mais de longe do que de perto. Hoje eu não acho que eu tenha permissão para ficar ali. Já estou longe o bastante para não conseguir acompanhar. Prestigiei ao meu jeito, lembrando dos fatos que já vivi por ali e que naturalmente serão vividos por outros agora. A “lojinha” vai ser reciclada, mais uma vez. E duvido que seja a última. Os acontecimentos também ali serão reciclados, ainda que com tortas ruins, coca de garrafa PET e na TV o futebol da atual seleção brasileira, que consegue ser muito mais medíocre do que aquela de 98.

E assim eu sigo nesta vida de reciclagem, me esforçando para não acreditar que tudo isso é um grande caminhão de lixo, me esforçando para enxergar o propósito deste museu de falsas novidades.

“Poucas horas depois, devastado pela vigília, entrou na oficina de Aureliano e perguntou: ‘Que dia é hoje?’ Aureliano lhe respondeu que era terça-feira. ‘É o que eu pensava’, disse José Arcadio Buendía. ‘Mas de repente reparei que continua sendo segunda-feira, como ontem. Olha o céu, olha as begônias. Hoje também é segunda-feira.’ (...) No dia seguinte, quarta-feira, José Arcadio Buendía voltou à oficina. ‘Isto é uma desgraça’, disse. ‘Olha o ar, ouve o zumbido do sol, igualzinho a ontem e anteontem. Hoje também é segunda-feira.’ Na quinta-feira voltou a aparecer com um doloroso aspecto de terra arrasada. ‘A máquina do tempo estragou’, quase soluçou (...)  Passou seis horas examinando as coisas, tentando encontrar uma diferença do aspecto que tiveram no dia anterior, procurando descobrir nelas uma mudança que revelasse o transcurso do tempo. Ficou toda a noite na cama com os olhos abertos, chamando (...) todos os mortos, para que viessem compartilhar de seu desgosto. Mas ninguém acudiu. Na sexta-feira, antes que todos se levantassem,  voltou a observar a aparência da natureza, até que não teve a menor dúvida de que continuava sendo segunda-feira.”
(Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vamos falar do tempo

Alguém em São Paulo reparou no dia lindo que foi este domingo de hoje? Pergunta retórica. Claro que todos os paulistanos e os que por aqui estiveram neste domingo perceberam o brilho especial que banhou a cidade hoje. Céu limpo, com um azul resplandecente, sol moderado, mas forte o suficiente para que alguns paulistanos reclamassem do calor, aposto! À noite, o friozinho volta, o termômetro desce da casa dos 20°, a lua limpa e prateada volta para o seu lugar e, com inveja do sol radiante de domingo, ilumina a madrugada agora.

Pois São Paulo bateu palmas para o domingo de hoje porque quase nunca é assim. O sol, quando aparece, está sempre tímido, secundário. Quando ele, o sol, resolve ser protagonista, machuca o paulistano, que tanto reclama, xinga, faz pouco caso da aparição possante do astro-rei, que, intimidado, sai, bate a porta e some por vários dias. Depois de enjoar dos dias acinzentados como o concreto dos edifícios, a cidade clama pelo perdão e chama de volta os raios fulgentes do sol.

Não sei se amanhã o dia lindo vai se repetir. Como vem uma segunda-feira de dezembro por aí, acredito que a grande maioria dos paulistanos que vivenciaram a beleza do dia de hoje, não está na torcida para que o sol reapareça. Logo os paulistanos estarão com suas roupas pretas ou semi-pretas, com seus sapatos fechados e nenhum dedinho de fora, a caminho do trabalho para mais uma das últimas semanas de 2011. Ninguém quer sol, ninguém quer calor. Até preferem que chova. Sim, pode chover o dia inteiro ou de surpresa, para isso o guarda-chuva é o primeiro item a ser guardado na bolsa. Tudo menos um calor infernal de 30°!

Pois aqui, o caro leitor me rebate e imagina que na seqüência vou escrever que no Rio é diferente, que seria ótimo se este domingo de hoje se repetisse 365 dias no ano etc etc. Pois aqui o caro leitor também se engana. É claro que adorei ver os raios de sol dançando na parede enquanto a tarde caia e os passarinhos cantando como que agradecendo pelo dia de hoje. Mas alguma coisa me incomoda nessa paisagem primaveril. E para paisagem, leia-se cidade + natureza (se há pouca “natureza” em São Paulo, olha pra cima e restrinja-se ao céu!).

São Paulo não combina com este clima de hoje. São Paulo não fica à vontade com este calor de hoje. A mistura do cinza do concreto e do semi-preto das roupas paulistanas com o azul do céu de hoje, mais o verde reluzente das poucas árvores que nos cercam, dá um resultado... Digamos, cinza sujo! A cidade fica desconfortável com pouca roupa, teima em cobrir-se. Prefere suar, procurar uma sombra a cada esquina a mostrar sua pele branca e os dedos dos pés.

E eu? Eu já sofri minha simbiose paulistana. Não consegui resistir, foi mais forte que minha carioquice suburbana. Claro, sou um camaleão e me adapto ao meio, mas o domingo de sol de hoje não foi suficiente para trazer de volta o prazer de sorrir somente por olhar o céu e a paisagem. Já que estou aqui, prefiro ver a cidade na cor costumeira: cinza puro! Sem azuis e sem dourados para sujar. Gosto da São Paulo chuvosa, cabisbaixa, muito agasalhada, que pisa forte com suas botas. Acho mais elegante, mais confortável, mais condizente. 

Sei que hoje foi um anúncio do verão suave que vem para incomodar São Paulo. Sei que só irá durar três ou, no máximo, quatro meses. Claro que com algumas fugidas repentinas do sol teimoso, que bate a porta mas depois volta. Sei que é momentâneo. Talvez esses meus achismos também só sejam momentâneos. Talvez em 2012 eu volte a gostar de ver dias de sol em São Paulo. Talvez em 2012 eu queira ver a cidade menos cinza. Talvez em 2012 eu esteja menos cinza. Talvez...

Praça do Relógio - USP