Ao contrário da odisséia descrita no último post, ir à Mostra de Filmes do diretor Alfred Hitchcock foi uma delícia! Sim, fui sozinha às cinco sessões no CineSesc da Rua Augusta, mas dessa vez sem bruxos e sem pacote de papel higiênico!
Recomendo muito o CineSesc. O capuccino e o pão de queijo são convidativos, sem falar da nostálgica barraquinha de pipoca na calçada, quase dentro do foyer do cinema! E pra finalizar, o ônibus pára extamente na porta do cinema. Para os defensores das calçadas vivas e avessos aos shoppings centers, a Augusta ainda te oferece uma "praça de alimentação" a céu aberto, e logo acima está a Paulista! Quer mais?
Eu assisti: Um casal do barulho (Mr. and Mrs. Smith, 1941), Pacto sinistro (Strangers in a Train, 1951), A sombra de uma dúvida (Shadow of a Doubt, 1943), Trama Macabra (Family Plot, 1976) e O homem que sabia demais (Man who knew too much, 1956). Sou apenas uma iniciante apreciadora das tramas de Hitchcock, mas, de cara, gostei muitíssimo de Pacto Sinistro e de A sombra de uma dúvida, mas nada que supere Psicose, o mais famoso suspense do diretor, que todos (ou quase todos) nós já vimos na tv.
A mostra encerra amanhã no CineSesc, mas ainda continua na semana que vem no cinema do CCBB de São Paulo. Acho que eu ainda vou dar um "perdido" por lá no meio do expediente... Não deixem de conferir! E comprem o catálogo da mostra! Uma verdadeira bíblia sobre Hitchcock.
Bom filme!
curvas da estrada Rio-São Paulo, diário de obra e de vida, ecos inquietantes de quem vive da arquitetura mas não sabe bem arquitetar sua vida...
domingo, 17 de julho de 2011
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Eu, meu amigo pacote e minha solteirice
Caro leitor, já experimentou ir ao cinema sozinha em um sábado à noite, nas férias de julho, pra ver uma comédia do Woody Allen, em pleno shopping center? Não? Pois então não sabes o que perdes!
Foi esta odisséia que aconteceu comigo neste último sábado. Juro que não sai de casa para ir ao cinema. Odeio shopping cheio e, ainda mais, cinema de shopping. Fui apenas comprar papel higiênico no supermercado (sim, as pessoas compram papel higiênico) de forma segura, e para isso serve um shopping center, para lhe dar segurança enquanto faz suas compras. E só para isso! Mas antes de me dirigir ao estabelecimento de nome francês, fui fazer minha única refeição diária, já que na volta das duas semanas que estive em Recife, me deparei com minha despensa vazia. Jantei um belo pratão de comida mexicana, mas antes passei pelo bendito cinema pra ver as novidades de julho. O que se pode esperar? Besteirol, bruxo, filminho brazuca, animação, mais um besteirol, mais outro besteirol... e uma única sala com a comedinha do Woody Allen! Eu juro que tentei resistir e voltar a pensar no papel higiênico, mas já era tarde. Fui comprar minha meia-entrada (sim, 11 anos de graduação e daí?). E aqui começa a odisséia.
Fase 1: Como disfarçar na fila do cinema (muito cheia, inclusive) que você vai comprar um único e mísero ingresso solitário para si próprio? Mas aqui o caro leitor se pergunte e eu já o respondo: Porque disfarçar a encalhadisse (ou o encalhadismo)? Simples: Eu poderia aqui listar uma infinidade de motivos para não ter um namorado agora e blá blá blá... Mas o fato é que numa fila de cinema sábado à noite, toda sua segurança vai por terra quando você olha para os quatro cantos e só vê casais e casais e casais! Namorados jovens, casais coroas, casal gay, casal que ainda não é casal de fato... E o que se faz numa hora dessa? Pega o celular e simula uma conversa com o “Mô”, murmurando que vai comprar os ingressos agora porque logo vai esgotar! Mas onde está meu celular? Ok, eu estou sem celular temporariamente há alguns meses. Ok, pega o rádio da empresa! Mas eu deixei em casa por que agora sou uma vítima de assalto psicótica que enche a bolsa de qualquer coisa menos com rádio, dinheiro, carteira, documento etc. Tática de falar com “Mô” não deu certo.
Já sei: Demonstre impaciência, fique olhando ao redor, batendo pezinho, como se o “Mô” fosse chegar a qualquer momento! Perfeito, funcionou. Agora quando chegar ao caixa, só não deixa ninguém ver que você só vai comprar um único, mísero e solitário ingresso. Pronto, ingresso comprado. Agora vai no mexicano, capricha no pratão (porque nestas horas pimenta faz bem), enche a pança e corre até o supermercado para comprar o papel higiênico e o chocolate. Ok, etapa cumprida!
Fase 2: Entrar no cinema com um pacote enorme de papel higiênico. Eu juro que comprei um que os rolos são achatados inclusive, prevendo a minha necessidade de colocá-lo na minha bolsa. Mas não coube. Levo no braço mesmo, no saquinho do estabelecimento de nome francês. Pensei eu: Vou adentrar naquele cinema de uma vez só, sem se quer olhar pros lados. E foi o que eu fiz. Mas quando chego à catraca, vejo uma fila... Não era uma fila, era uma multidão! E não era uma multidão qualquer, era um monte de jovens eufóricos, uns inclusive vestidos de bruxo! Sim, era estréia do último filme da saga do maldito bruxo! Que medo disso. Diminui o passo e observei aquelas criaturas, enquanto provavelmente o meu pacote de papel higiênico também era observado. Não acreditei que teria que me enfiar no meio dos bruxos, como um poste solitário em meio a essa multidão. Graças ao meu bom Santo Antônio das Trintonas Encalhadas, a fila para os demais mortais, que não os bruxos, era outra! Passei a catraca.
Fase 3: Escolher rapidamente um assento que não seja entre 17 casais apaixonados. Fui rápida e certeira e sentei-me no segundo banco de uma fila, sendo que o 1º e o 3º banco estavam vazios. Ninguém ia cometer a audácia de sentar ali do meu lado. Trato logo de colocar meu pacote amigo de um lado e de me esparramar para o outro lado. Pronto, ocupei três lugares! Eu, meu pacote e minha solteirice.
Mas daí você senta, olha pra lá, olha pra cá, os trailers passando... a carência bate e seu inconsciente (maldito!) começa a pedir pra Santo Antônio das Trintonas Encalhadas que um cara alto, moreno, simpático, com um sorriso tão grande e radiante que até eu conseguiria enxergar naquela escuridão, peça gentilmente licença e sente ao seu lado. Pois não é que o Santo atendeu meu inconsciente! Só que o Santo esqueceu que eu sou a carioca mais tímida de São Paulo e redondezas... O dito cujo sorriu, sentou, encostou seu braço no meu braço (ui!) e eu não desviei 5° para o lado para ver mais do que minha visão periférica permite, ou seja, quase nada. Tratei de cobrir com a bolsa o meu amigo pacote, mas logo relaxei e imaginei que o carinha devia ser super descolado, a ponto de rir de quem vai ver filme com um pacote de papel higiênico. O Woody Allen passou na telinha (rápido por sinal), eu escutei os risos do rapaz, ri bastante também, e assim que acabou o filme, eu abracei meu pacote e esperei alguns créditos passarem... O rapaz também esperou. Logo as luzes se acenderam e minha vergonha não me deixou ficar mais um segundo ali dentro.
Mas daí você senta, olha pra lá, olha pra cá, os trailers passando... a carência bate e seu inconsciente (maldito!) começa a pedir pra Santo Antônio das Trintonas Encalhadas que um cara alto, moreno, simpático, com um sorriso tão grande e radiante que até eu conseguiria enxergar naquela escuridão, peça gentilmente licença e sente ao seu lado. Pois não é que o Santo atendeu meu inconsciente! Só que o Santo esqueceu que eu sou a carioca mais tímida de São Paulo e redondezas... O dito cujo sorriu, sentou, encostou seu braço no meu braço (ui!) e eu não desviei 5° para o lado para ver mais do que minha visão periférica permite, ou seja, quase nada. Tratei de cobrir com a bolsa o meu amigo pacote, mas logo relaxei e imaginei que o carinha devia ser super descolado, a ponto de rir de quem vai ver filme com um pacote de papel higiênico. O Woody Allen passou na telinha (rápido por sinal), eu escutei os risos do rapaz, ri bastante também, e assim que acabou o filme, eu abracei meu pacote e esperei alguns créditos passarem... O rapaz também esperou. Logo as luzes se acenderam e minha vergonha não me deixou ficar mais um segundo ali dentro.
Voltamos para casa, eu, meu amigo pacote e minha solteirice. Mais uma vez, em mais uma noite fria paulistana.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
A sociedade do registro
Talvez o tema sobre o qual irei discorrer já esteja um tanto demodê. Aliás, demodê é esta palavra! Digamos então: antiquado, anacrônico. O que importa é que ainda continuo achando absurdo o significado que as pessoas atribuem às fotografias e registros em geral. Tenho ficado cada vez mais extasiada com a importância que o registro tomou em detrimento do acontecimento em si.
No último domingo vi um caso na TV, onde a mulher estava desesperada pelo fato do fotógrafo não ter comparecido ao seu casamento. Ela então o processou e dizia que dinheiro nenhum iria trazer aquele momento (não registrado devidamente) de volta. Ok relevemos, pois era o casamento dela, evento único (assim esperamos que seja!) da vida de uma mulher. Mas que eu me lembre bem, no meu tempo, estes momentos importantíssimos eram gravados principalmente na memória! Claro, a foto e a filmagem são registros detalhados, que podem inclusive mostrar o evento para quem não o viveu. Mas tornar o registro algo tão imprescindível assim, me faz duvidar da essência do evento. E me faz perguntar: o importante é viver ou registrar?
É claro que registrar significa muito mais do que ter um material para reavivar sua memória. Significa exibir concretamente aquele momento, que para você foi tão especial, para outras pessoas. E aqui se encontra o cerne da questão: até que ponto “vivemos” um momento especial sem pensar em como sair bem na foto? É claro que a difusão das redes sociais e o advento (já tão popularizado) da câmera digital elevam tudo isso à enésima potência.
Mas convenhamos que de fato é um martírio ver noivos perdendo 2/3 da festa do casamento tirando aquelas 500 fotos, crianças com sorriso engessado para o deleite dos pais aspirantes a fotógrafos etc. Ao passo que vemos adolescentes eufóricos fazendo mil poses para que pelo menos uma delas fique decente e possa ser exibida no Orkut e afins. Mas o pior para mim é ver um álbum inteiro de fotos de viagem do indivíduo e perceber que em todas as imagens o dito cujo está lá com a cabecinha torta tentando aparecer no enquadramento. Ou seja, não basta o fulano exibir que enfim conseguiu fazer aquela viagem e exibir todas as paisagens, construídas ou não, da tal cidade, não basta! O desgraçado exibido tem que aparecer como um carimbo na foto, como uma nota de rodapé! Sim, justo, porque foto ele pode baixar na internet, mas foto carimbada com sua cabeça torta só o incompetente pode fazer.
Podem me chamar de chata ou o que for. Mas pra mim quem muito registra em fotografia, pouco tem a mostrar. Creio que ganhamos muito mais presenciando o momento na sua essência, sozinho ou em boa companhia, atento aos detalhes, às cores, ao cheiro, aos sorrisos, às vozes, aos sons, ao movimento repentino, aos contrastes, ao instante... Porque a foto pode até te lembrar depois, mas se não percebemos estes detalhes, a foto vai ser mais uma foto nitidamente vazia, como tantas que vemos por aí.
PS: Que fique claro que eu adoro fotografia! Taí uma fotinho que eu achei inusitada: Caramelo Dog no Caramelo da FAU!
domingo, 15 de maio de 2011
Sim, estou fugindo de gente "diferenciada"
É curiosamente estranho quando uma situação pontual muda o seu cotidiano e sua forma de pensar sobre um assunto delicado. Pois então, sendo bem direta, fui assaltada na esquina da minha rua há quase um mês. Nada muito traumático, um assalto até leve: não vi arma, o rapaz não foi hostil, não tive grande perda material e, surpreendentemente, minha carteira repleta de documentos foi deixada na biblioteca da FAU USP, duas semanas depois da ocorrência! Graças às preces da minha mãezinha e pela boa menina que sou, Deus está sempre me protegendo das hostilidades desta minha vida metropolitana.
Já passei por apuros bem piores na capital fluminense. Já vi cenas muito piores. Já corri e deitei no chão por barulhos muito piores. Já vi pessoas e objetos muito mais ameaçadores. E, infelizmente, nestes mesmos termos, já perdi uma pessoa muito amada. E nem por tudo isso deixei de viver a minha cidade natal. Nem por isso nem por qualquer outra coisa, eu deixaria de andar pelo Rio como se sempre estivesse andando no quintal de casa.
Mas aqui em Sampa City a coisa não aconteceu bem assim. Não sei se é por viver sozinha aqui, por não ter o recanto seguro do colo de mãe por perto, que manda você dormir enquanto ela resolve tudo num piscar de olhos. Ou por ter sido a primeira vez que passei apuros sem ninguém pra se desesperar ou chorar junto comigo. Só sei que a coisa mexeu com a cabeça de quem vos escreve.
Sim, estou um pouco cismada com o mundo à minha volta. Andando rápido pelas ruas, colocando os documentos no bolso e o dinheiro no sutiã. Se alguém quiser levar a minha bolsa, pode levar! Só terá moedas, por que nem celular eu tenho mais! Mas não é com a perda material que eu me preocupo. Aliás, não é com o que “eles” vão levar que eu me preocupo. O que está tirando minha tranqüilidade é o susto. Sim, a possibilidade de ser abordada a qualquer momento e, conseqüentemente, o susto que eu vou tomar. Quer levar a bolsa (vazia)? Sem problemas, mas vem avisando aos poucos que sua intenção será essa, por gentileza.
Já escrevi quatro parágrafos, prometi ser direta, e cá estou sem ir ao ponto. Vou ser breve: o ponto é a desconfiança que estou criando de pessoas “diferenciadas” na rua. Não, não estou me referindo ao churrasco de Higienópolis, mas a tal “diferenciação” me parece ser a mesma a que me refiro. Agora o prezado leitor imagine eu, uma garota (não gosto de me chamar de mulher, prefiro até menina!) criada no subúrbio carioca, no pé de favela, de família que nunca teve carro, que andou o Rio de norte a sul e mais a Baixada, que no churrasco de família o que rola é pagode e itaipava, que adora futebol e suas extensões (sim, sou rubro-negra, claro!)... Imagine eu, quem voz escreve, andando em São Paulo tendo receio de qualquer gente “diferenciada”, que use bermudão e boné que venha na minha direção? Logo eu, filha de preto, com primos negões enormes (no melhor estilo MV Bill!), com primas lindas que fazem o sucesso no baile funk (sim, pelo menos duas vezes por ano, eu as acompanho!), e com uma irmã que já pertenceu assiduamente ao fã-clube do Exaltasamba (sim, eu já fui a muitos pagodes com ela!)... Eu nunca tive nenhum preconceito ou estigmatizei pessoas que compartilhem destes gostos. Não é hipocrisia! O que eu não gosto, eu não gosto. Não tenho problemas em dizer que não gosto de certos gostos do povão. Mas nunca apontei o dedo pra dizer que bandido, pivete ou ladrãozinho mequetrefe é aquele que ouve funk no celular nas alturas, que usa roupa surfwear, que tem canela seca e cara de mau. Até porque, pelo que expus aqui, estarei cortando na minha própria carne.
Sempre condenei gente (e já falei na cara de muitos deles) que acha que todo moleque pobre de comunidade está a um passo de ser bandido. E, neste sentido, também condeno as pessoas que não andam a pé pela cidade e que, portanto, preferem a segurança dos shoppings centers a uma boa tarde de compras na Rua do Ouvidor ou na Rua Teodoro Sampaio, porque nos shoppings, além do ar condicionado, ninguém é obrigado a ver gente “diferenciada”.
Mas a verdade é que, ontem, ao invés de ir ao supermercado atacadista perto de casa, que costumo ir há quatro anos, que fica literalmente no pé da favela, fui ao Carrefour, que fica dentro do shopping. A verdade é que estou assim. Mas não pretendo ficar assim. Não quero ser assim.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
José Forjaz na FAU
Apenas para completar o texto do post anterior, gostaria de comentar uma surpresa curiosa da semana que passou. Poderia ter sido a minha primeira experiência concreta no novo escritório - a exposição '1908, um Brasil em exposição', na Caixa Cultural - ou ainda o prazer que tive ao conhecer a Professora Margareth da Silva Pereira, curadora desta mostra. Mas vos digo que antes disso, na quinta última, tive o Professor Forjaz como espectador da minha apresentação de projeto na FAU. Exatamente! Ao entrar na sala de aula, ainda naquela expectativa pré-apresentação, vi que o Prof. Luis Antonio Jorge, curador da exposição que relatei no post anterior e nosso professor da disciplina, convidou o Prof. Forjaz para nos assistir. Meu chefe, que também ficou impressionado com a mostra no MCB, me perguntou depois: "Você ficou insegura?". Eu? Imagina! Fiquei muito honrada de tê-lo em sala de aula. Inclusive acho que me empolguei e falei mais do que devia! Simplesmente uma das melhores aulas que tive na FAU USP: Prof. José Forjaz, Prof. Luis Antonio Jorge e Prof. Milton Braga.
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