segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Fazendo as pazes

Vou pedir uma licença poética para os meus caros leitores (se é que, de fato, tenho leitores e se é que, de fato, já tenho direito à licença poética!) e vou retomar o assunto do dia: Futebol. Ultimamente não tenho me permitido escrever por aqui, não tenho tido a tranqüilidade suficiente para refletir um pouco sobre as trivialidades do dia-a-dia e colocá-las no papel, aliás, na tela do notebook. Mas daí vem o bom e velho futebol para te permitir tal façanha, pois este sim tem passagem vip pelos pensamentos estressantes do cotidiano e se dá o luxo de tomar um dia inteiro pra si, como aconteceu comigo neste domingo. Portanto, terminarei o dia de hoje escrevendo sobre futebol.

Tenho aqui em mãos, uma crônica do Paulo Mendes Campos, intitulada “Salvo pelo Flamengo”, que fiz questão de passar os olhos agora, novamente, para relembrá-la e citá-la aqui. Coincidentemente, ele começa seus escritos citando o Flamengo e logo dizendo que não torce pelo time da Gávea. A crônica se desenrola e, só ao fim, Paulo Mendes Campos dá a entender que torce pelo Botafogo e fecha a sua história. Citei esta crônica porque hoje, propositadamente, vou escrever sobre o Corinthians, que hoje ganhou seu penta-campeonato brasileiro. Não, caro leitor, não vou escrever sobre o Flamengo, mas assim como fez Paulo Mendes Campos, vou retomá-lo no final.

É sabido no meio futebolístico que alguns times “colam” com outros de outras regiões. Desculpem-me, na verdade quem “cola” são as torcidas e não o time (ou o clube) em si. Por exemplo, as torcidas do Palmeiras são “co-irmãs” de torcidas do Vasco (quem acompanhou os jogos de hoje, percebeu claramente isso), e assim as “co-irmãs” se estendem pelo Brasil afora. No caso do Flamengo, enquanto eu morava no Rio, sempre tive a impressão que as torcidas rubro-negras “colavam” com as torcidas do Corinthians. E trouxe esta idéia comigo desde que vim para São Paulo, há quase cinco anos. Não sou a carioca mais informada sobre futebol, mas imagino que por serem dois times, Corinthians e Flamengo, de grande amplitude nacional e também com vasta abrangência de torcedores nas classes sociais mais baixas, estes times sempre tiveram características próximas, o que talvez também tenha favorecido uma aproximação entre as torcidas. Corrijam-me, caso eu esteja errada!

Como disse, não sou a mais informada dos bastidores do futebol, mas tenho certeza que um fato estremeceu a relação entre estes dois times: A ida do Ronaldo para o Corinthians. Sim, faço parte da nação rubro-negra que se sentiu traída pelo Fenômeno, que esteve próximo de jogar no Flamengo, mas preferiu o time do Parque São Jorge ao time da Gávea. E daí em diante, juntei-me à indignada massa flamenguista e também fiz coro (só que mais próximo) de “ódio” ao Corinthians e ao Ronaldo. No campeonato brasileiro de 2010, fui ao duelo entre os dois times no Pacaembu e, infelizmente, o Ronaldo não jogou, mas ainda assim perdemos de 1 x 0. Uma impressão eu trouxe daquele domingo de 2010: como a torcida do Corinthians faz uma festa bonita no Pacaembu! De fato, é a casa deles. O Palmeiras que me desculpe, mas também fui ao Pacaembu para ver Palmeiras x Flamengo e não há comparação. Parafraseando o outro Ronaldo, o Gaúcho, Corinthians é Corinthians, pelo menos no que diz respeito à festa da torcida.

Hoje, domingo, ao fim de toda a cobertura do título corintiano, eu assisti a um filme sobre a história do Corinthians, feito em 2010, por ocasião do centenário do clube, intitulado “Todo Poderoso: O filme – 100 anos de Timão”. Não pense que para uma rubro-negra convicta é fácil assistir a quase duas horas sobre a história de um time rival, ainda mais depois de assistir ao jogo que deu ao Corinthians o título do campeonato. Pois então, caro leitor, foi fácil sim. Foi tão fácil que estou aqui me excedendo na conversa e ainda escrevendo sobre Corinthians e tudo mais.

Ocorre que o filme, antes de tudo, é um filme histórico, no sentido de que faz um leve paralelo entre a história do Brasil e de São Paulo com a criação e o desenvolvimento do clube. E nisso eu acabo por me interessar bastante, pois estou trabalhando no projeto do Museu do Flamengo e este é um paralelo que também fazemos para contar a história do time da Gávea, só que relacionando com a história do Rio de Janeiro. Ocorre também que hoje faleceu o grande Sócrates, que por pouco não vi jogar, mas sempre acompanhei suas incursões nas mesas redondas sobre futebol na TV. Sempre soube da sua fama e do seu talento diferenciado, mas hoje com o filme, pude entender mais sobre a tal “democracia corintiana” e ver como o Doutor fez a diferença dentro e fora das quatro linhas.

Mais sensibilizada do que de costume, me peguei hoje tendo mais simpatia pelo Corinthians. Mesmo sabendo que a recíproca não é verdadeira, mesmo sabendo que o mundo é dividido em flamenguistas e anti-flamenguistas, mesmo assim, hoje percebo a real semelhança entre os dois times, ou melhor, entre as duas torcidas, entre as duas camisas!

Talvez seja só uma emoção efêmera, talvez amanhã eu continue fazendo cara feia para os corintianos que vão orgulhosamente vestir São Paulo de preto e branco, talvez eu nunca perdoe o Ronaldo, talvez eu nunca goste desta Seleção Brasileira que é um time corintiano com jogadores que jogam fora do Brasil, talvez amanhã eu já não me sinta uma co-irmã de um corintiano... Mas só por hoje, como escreveu Paulo Mendes Campos, o Flamengo que me perdoe, mas tenho que concluir: Parabéns Corinthians, pelo título, pela sua torcida, pelos jogadores que passaram pelo Parque São Jorge, pela sua história!

E para ilustrar, como de costume, aqui não vou homenagear o Corinthians, mas o seu Doutor, que dentre outros clubes, sim, jogou em um verdadeiro Timão!

(imagem extraída da internet)


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

E a vida responde...

 - Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais,
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?

- Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.

- Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?

- Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso de tais partidas.
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.

- Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

(...)

- Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
Vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como há de pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina. 

(MORTE E VIDA SEVERINA, João Cabral de Melo Neto, 1954/55) 

 

(teleteatro Rede Globo, direção Walter Avancini, música Chico Buarque, 1981)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Da série “Nordestices”: Recifando!

Uma vez um colega blogueiro me disse: “Você anda pela calçada e de repente chuta uma pedra. Está ali uma crônica!” É a mais pura verdade. Quem gosta de escrever crônica (ou pseudo-crônicas, como eu denomino os meus modestos escritos) sente o exato momento em que aquele fato cotidiano, ordinário, trivial pede uma reflexão no papel. Aliás, meu pai escrevia as crônicas da “Esquina Carioca” no papel! Infelizmente não posso me dar este luxo com o meu “Entre Esquinas”. Pois eis que tenho uma “pedra chutada” há mais de três meses e preciso, pelo menos, começar a registrar aqui, por que sei que esse tema ainda vai dar muito pano pra manga.

Em junho deste ano fiz minha primeira viagem não-turística ao Nordeste: Fui a Recife, a trabalho. Foram programados 15 dias de montagem de uma exposição sobre Michelangelo no Instituto Ricardo Brennand, a qual eu coordenaria. Obviamente saí de São Paulo imaginando fins de semanas livres para ir a Olinda, Porto de Galinhas, Caruaru e por aí vai. Mas foram de fato 15 dias corridos de trabalho. Trabalhei até uma hora antes de a exposição ser inaugurada e ainda tive que voltar no espaço no dia seguinte, já com malas prontas para ir embora de Recife, para finalizar os detalhes que ficaram pra trás. E aqui o caro leitor se comove com esta menina trabalhadora e pensa: Coitadinha! E eu respondo, como nossos queridos paulistanos: Imagina!

Nestes 15 dias em Recife eu descobri como olhar pra uma cidade sem aquele olhar vislumbrado de turista. De início, não levei nenhuma câmera fotográfica. Sim, nenhum registro sequer da cidade. Também não fiz aquela costumeira busca no Google sobre os lugares imperdíveis para visitar. Tampouco perguntei a quem já tinha ido à capital pernambucana o que eu devia fazer nas horas vagas de trabalho. Em termos, posso dizer que fui de mala vazia!

Sem saber, eu já tinha uma bagagem inerente: sou filha de nordestina. Passei toda minha vida cercada de migrantes do Norte, como eles se auto-intitulam. Aprendi a gostar de pimenta, farinha, comida com caldo, feijão de tudo quanto é jeito e tudo mais que lembre o Nordeste ao caro leitor. Aprendi a ter a generosidade desse povo. Aprendi a ser “virona”, a driblar a época de vacas magras e esperar a chuva cair. Não seria nenhuma novidade me sentir em família em meio ao povo recifense, que eu nunca tinha tido contato. Mas essa ficha foi caindo aos poucos, em cada viagem de “prosa” com o taxista, no dia a dia de trabalho com a “turma” da montagem, na conversa despreocupada com algum desconhecido, no pedido do almoço com o garçom do restaurante... Ou enquanto andei sozinha pelas ruas sem ter que tirar foto cartão-postal, ou reparava na conversa alheia no ônibus... De repente eu não só estava ali naquele lugar, mas já me sentia daquele lugar.

Talvez o fato de já estar em São Paulo há quase cinco anos faça me sentir melhor em meio ao povo nordestino, mais caloroso que o paulistano, assim digamos. Talvez seja só isso. Mas acredito de verdade que não. Teve algo mais. Senti como algo me puxasse pra ficar naquele lugar, a continuar escutando o “entedesse” e o “visse” daquele sotaque cantado. Mas a montagem terminou e eu voltei pra esta nossa gélida cidade da garoa. Pois eu não precisei ficar no Nordeste para que a ficha terminasse a cair: Eu sou do Nordeste! Ok, sou um camaleão, me adapto a tudo e a todos, mas sinto uma identificação muita mais íntima quando estou perto daquele povo. Posso dizer que é uma identificação ligada ao meu passado, a um passado que eu não vivi, mas que mesmo assim me pertence. Como eu falei acima, uma bagagem inerente, uma raiz que brotou por lá há muito tempo e que deu frutos em mim.

É justamente o contrário do que eu sinto em relação ao que busco aqui em São Paulo. Aqui é uma identificação ligada ao futuro, ao que eu quero descobrir e que ninguém me apresentou ou plantou em mim. Como disse o Renato Russo: “Essa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi”. Mas isso é pano para outra manga.

E como eu também disse no início dessa crônica-desabafo (está aqui uma nova categoria!), só quis aqui registrar este tema, por que certamente ele vai voltar nestas páginas. As idéias de “viagens sociológicas” pelo Nordeste já fervilham na minha mente. Inclusive já pude voltar em Recife em setembro, para a desmontagem da mesma exposição, agora com mais folga e menos preocupada. Sim, fui à Olinda e de fato é uma visita indispensável! Cabe sobre esta cidade outro texto. Posso até criar neste blog uma categoria “Nordestices”. Vejamos o que vem por aí.

Para finalizar, tive a sorte de chegar em Recife em pleno feriadão de São João. E claro que fui conferir uma festa: Quinteto Violado no centro velho de Recife, cantando o legítimo forró pé de serra! E como bem diz minha mãe: Viva Gonzagão!


(P.S: Este vídeo não foi do show que assisti. Como disse anteriormente, não fiz nenhum registro da viagem!)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Minhas madrugadas com o passarinho

Nada como uma madrugada em claro para aproveitar e atualizar meu blogzin! Nada de discussões profundas por hoje, afinal já são 5h30 da manhã e preciso sair de casa às 7h. Nem textos dramático-melancólicos, pois a madrugada já deu conta do recado. A pedida de hoje é simplicidade e trivialidade.

A primavera está por vir e o frio de São Paulo já começa a ficar gostoso. Pra ser sincera, depois de quase cinco anos, eu já posso dizer que aprendi a gostar do frio paulistano, já sei aproveitá-lo de forma interessante e já não acordo todo santo dia reclamando da friaca ao sair de casa. Nesta madrugada de hoje, eu permaneci acordada, entre ver um programa na TV e fuçar curiosidades fúteis na internet, mas com a porta da sacada entreaberta. A “brisa” paulistana entra na sala e parece trazer um pouco da cidade que está lá fora. Traz o frio, traz os cheiros, os sons...

Aqui na várzea uspiana, como costumo chamar os arredores do campus da USP, a cidade não tem som nem cheiro de metrópole. Sempre quando salto do ônibus na volta do trabalho, sinto um cheiro de mato úmido e frio, que me faz lembrar as noites do meu 2º grau em Chiador-MG. E quando a primavera começa a dar sinal, a brisa das madrugadas traz o som de uns pássaros que circulam aqui pelas poucas árvores que enfeitam meu condomínio. Não entendo de pássaro nem do som que eles emitem, mas é interessante escutá-los.

Há um ano eu estava saindo com um paulista que volta e meia aparecia aqui na minha porta no meio da madrugada. Com ele o jogo era aberto, não havia nenhuma perspectiva de relacionamento, digamos, profundo e, portanto, eu não esquentava a cabeça se ele batia na minha porta às 3h da manhã. E sempre quando ele chegava por aqui neste horário, havia um bendito passarinho que começa a cantar. Uma vez ele, o rapaz da madrugada, chegou a avistar o passarinho numa árvore do condomínio. Só ele viu, apontou, mas eu, sem óculos ou lentes, só escutava a cantoria.

Um ano passou, o rapaz vai muito bem, obrigada, só que com outra garota, e eu sigo em frente nas minhas madrugadas, solitárias ou não. Mas a cantoria continua. Hoje eu saquei o primeiro canto da madrugada, exatamente às 2h57! Pontualidade britânica do danado do passarinho! Ele canta sozinho, um canto repetitivo, alto, quase estridente. E assim ele segue, solitário, cortando o silêncio da madrugada. Logo a manhã se aproxima e os outros passarinhos vêm para se juntar a ele. E em seguida, o barulho dos carros começa a perturbar a cantoria dos pássaros. O som dos ônibus freando e depois acelerando no ponto, os caminhões pesados e suas cargas quicando no asfalto, os automóveis impacientes e suas buzinas... Pronto, hora de largar a madrugada e se apegar no dia que começa.

Antes desta manhã começar, eu saí à sacada do meu apartamento para sentir um pouco mais do frio e do som do pássaro e ali fiquei por um bom tempo. Dois gatos circulavam à vontade pelo estacionamento. Lembrei da figura do meu pai, nas manhãs cariocas de folga do trabalho, em que ele se debruçava na janela depois do café da manhã e jogava pedacinhos de miolo de pão para as (extintas) rolinhas no quintal. Elas compareciam em bom número, o banquete durava por volta de meia hora. Meu pai assobiava e as rolinhas apareciam. Nosso falecido cachorro, Marronzinho, espreitava de longe e ameaçava pegar um ou outro pedaço maior de miolo de pão que caía no quintal.

Hoje não tenho mais quintal. Tenho estacionamento. Os passarinhos não freqüentam mais este “térreo”, vivem todos em outro andar, o qual minha visão debilitada não alcança. Eu falava no início do post de coisas simples e triviais, porém não menos especiais. Quer cena mais simples, especial e bonita do que um quintal rodeado de árvores frutíferas, numa manhã ensolarada, um cachorro preguiçoso te espreitando e rolinhas gulosas atrás de miolo de pão jogado da janela?

Não consegue imaginar esta cena? Então, caro leitor, aproveito para recomendar-lhe um filmezinho francês “La tête en friche”, que aqui traduziram para “Minhas Tardes com Margueritte”, com o sempre divertido Gérard Depardieu. Pelo cartaz do filme você já pode fazer uma analogia com o que descrevi acima: uma velhinha, pombos gulosos, sol de meio de tarde, o verde do parque...



Amanheceu. Amanheçamos então!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Acima de tudo, rubro-negro!

Com uma semana de atraso, venho aqui para registrar a emoção do tão comentado jogo entre o meu Flamengo e o Santos. Não pretendo descrever a partida, nem comentar a atuação brilhante do Ronaldinho Gaúcho e companhia, e muito menos falar mal do Neymar “cai-cai”. Isto tantos outros já fizeram pela mídia, com certeza com muito mais primor do que eu o faria. Assumo inclusive que tenho um déficit de inteligência para analisar um jogo de futebol taticamente. Vejo pelo lado da paixão: xingo até a 5ª geração dos jogadores, dou canelada na mesa do bar, fico apontando pra onde o desgraçado do meia deve abrir aquela bola e por aí vai. E isso é em qualquer jogo que vejo, seja do Mengão ou torcendo contra os “vices” ou contra a “galinhada”. Para a Seleção Brasileira eu já sou mais calma. Depois do trauma daquela decisão de 98, não consigo mais me emocionar ao ver a amarelinha em campo.

Assisti ao jogo contra o Santos em um bar conhecido pela torcida rubro-negra aqui em São Paulo, em meio ao sotaque carioca de gente como eu, perdida na cidade cinza. Todos a caráter com seu manto sagrado, cerveja gelada no copo e... Bola rolando! E o andamento da partida vocês já sabem: 3 x 0 pro time da Vila Belmiro aos 30 minutos do 1º tempo. Não consigo lembrar o que passou pela minha cabeça naqueles instantes. Mas de uma coisa eu lembro: de estar aliviada por não ter ido à Vila, pois quase fui, desisti à tardinha, inclusive estava já de mala e cuia pra descer pra Baixada. Mas não demorou para eu pensar o contrário: Por que eu não desci pra Vila? Na seqüência, um lance atrás do outro, uma emoção após outra, seqüência de três gols do Mengão, sem tempo para se quer pedir outra gelada pro garçom.

Intervalo, jogo empatado, já com aquele pênalti bizarro do Elano e com as embaixadinhas do nosso arqueiro Felipe. Tempo de ir até a calçada, discutir um pouco com a cariocada sobre os lances da partida, pedir outra cerveja e então assistir aos demais 45 minutos. Logo o balde de água fria, gol do Santos. Mas daí constato: como o time do Flamengo é raçudo quando está com o placar desfavorável, não? Talvez não, verdade. Talvez tenha sido particularmente neste jogo, neste embate entre o professor do futebol-malabarismo e o seu mais novo pupilo. Talvez tenha sido a áurea especial desta partida, que não saberemos o porquê, mas empurrou os dois times para o espetáculo que foi este jogo. A virada no placar pelo time mais querido do mundo foi onírica, impensável naqueles instantes em que eu sequer lamentava de não ter ido à Vila. Se eu pudesse descrever uma partida ideal do Mengão, não chegaria perto do que foi este duelo de quarta-feira passada. 

Se o caro leitor tiver a honra de, assim como eu, torcer pro time mais passional do universo, vai entender o que foi o pós-jogo. Saí do bar feito um tiro para pegar o metrô, com um sorriso indisfarçável (claro com o manto sagrado já na bolsa para evitar hostilidades vindas daqueles que não torcem pro time certo), com o coração a mil, os lances do jogo indo e voltando à mente, com o canto da torcida na ponta da língua: "Oh meu Mengão, eu gosto de você... Quero cantar pro mundo inteiro, a alegria de ser rubro-negro... Cante comigo MENGÃO: acima de tudo rubro-negro!". E quem conseguiu dormir bem depois de todo este delírio? Acordei por duas vezes na madrugada, sonhando que o Santos tinha virado pra cima do Flamengo! E o dia seguinte, é aquilo: trabalhar com o manto sagrado, ver os lances da partida zilhões de vezes, ler e ouvir tudo que se fala sobre o jogo (e constatar que a mídia de uma forma geral adora idolatrias e histórias extraordinárias).

O que mais passou na minha cabecinha durante toda essa semana pós-jogaço, foi pensar como é bom gostar de futebol! Como é bom ter paixão por um time e vê-lo entrar em campo e brilhar! Como é boa a apreensão da derrota temporária, que se converte no êxtase da virada! Aqui eu já constato que o caro leitor é rubro-negro (e se não é, já está quase lá!) e que vai me entender por eu falar que virada nenhuma será mais emocionante que a decisão do Carioqueta de 2001, com o gol do Pet aos 43’ do 2º tempo, em cima dos eternos vices. Mas posso afirmar que desde lá, há 10 anos, que eu não coloco o coração na boca por conta de uma partida, nem no Brasileirão de 2009, quando fomos campeões! Esta partida contra o Peixe foi emblemática para mim. Fez sacudir meu coração rubro-negro, que volta e meia se vê solitário aqui na cidade cinza. 

Não sei por que nem quando exatamente eu comecei a gostar de futebol, lá nos idos de 1990. Sei quem foi o responsável: meu pai, claro, que passava o domingo inteiro no sofá, vendo fórmula 1, campeonato italiano (quando ainda não era tão popular) e os depois os jogos daqui do Brasil, isso quando não tinha boxe na madrugada de sábado para domingo! Ali eu ficava, ao lado dele, e possivelmente ali começou tudo. Ele torcedor do América do Rio, simpatizava com qualquer time que jogasse bem. Já eu, fui fisgada pelo rubro-negro das multidões, mas herdei do meu pai o gosto de assistir a tudo e qualquer partida, de qualquer time, da Seleção (a rubro-negra, claro) ao Santa Cruz F.C. de Chiador MG, time pelo qual defendi a braçadeira de capitã (sim, eu era a mais entendida do assunto!) e joguei na zaga e, às vezes, no meio de campo, entre os anos de 1996 e 97. O crédito da foto abaixo é do fotógrafo oficial do nosso time, meu pai, lá conhecido como Seu Mazo.


Feliz 85 anos, pai. Obrigada por ter feito da sua menina, em termos futebolísticos, um moleque!